Madre Tomásia do SSmo Sacramento
Nascida no dia 6 de Março de 1686 na cidade de Coimbra, era filha de D. Diogo Gommes de Carvalho, Cavalheiro do hábito de Cristo e Cartorário da Universidade de Coimbra e de D. Leonor de Souza. Seus pais esforçaram-se por lhe darem uma educação das melhores do seu tempo, aproveitando as qualidades que nela encontravam, tanto de inteligência e vivacidade como de inclinação para ajudar os mais pobres, doentes e necessitados. Juventude Tinha apenas 12 anos quando a sua mãe faleceu. O pai responsabilizou-a pelo governo da casa, o que fez com tal dedicação que agradava e contentava a todos os da família. Assim, crescendo ela na idade crescia em todos o amor que lhe tinham. Numa bela tarde de primavera, passeando a cavalo pelos montes, então despovoados, da cidade de Coimbra, gozava tranquilamente da beleza da natureza quando, passando pelo Casal do Chantre, o cavalo se assustou e a atirou violentamente para o chão. Tomásia, sem perceber bem o que se passava, ouviu uma voz que lhe dizia: “Aqui se há-de fundar um Convento de Carmelitas Descalças” Nada percebeu, por então, do significado misterioso destas palavras. Desabrochar da vocação Com o passar do tempo foi sentindo que a vida de sociedade que então desfrutava não a enchia por completo... Sentiu o desejo de entrar na vida Religiosa, embora não soubesse logo de inicio onde é que o Senhor a chamava a servi-Lo. Um dia deu a entender a seu pai que estava decidida a seguir a vida religiosa, ele, porque a amava muito e temia perder a sua companhia, disse-lhe que durante a sua vida nunca lho consentiria e que depois da sua morte fizesse o que quizesse. Tomásia sofreu muito com a resposta do pai, no entanto não duvidou que se o Senhor a chamava de verdade lhe havia de abrir o caminho. Tomou como director espiritual a Fr. Francisco de Sto. Alberto, Carmelita Descalço, que a ajudou a procurar a sua vocação e a maneira de se preparar para melhor a abraçar. Tomásia, jovem dinâmica e generosa, sentiu que o Senhor a chamava a abraçar a vida contemplativa no Carmelo, dando-se toda a Deus em favor da humanidade e entregando a sua vida numa disponibilidade contínua como lhe era próprio. Tendo ela completado 20 anos, Fr. Francisco aconselhou-a a entrar no Carmelo de Aveiro. Mesmo sabendo que isso custaria muito a seu pai e irmão, era necessário ser fiel à voz de Deus! A ajuda de Deus Neste altura chegou ao Colégio de S. José, em Coimbra, o Padre Provincial dos Carmelitas, Fr. Félix do Espirito Santo. Sendo informado por Fr. Francisco dos grandes desejos que a jovem Tomásia tinha de ser Religiosa Carmelita, juntamente com a impossibilidade de o conseguir pela oposição de seu pai, ofereceu-se para interceder por ela junto do pai, pedindo-lhe que fizesse o gosto a uma tão boa filha. O que, de facto fez, dando-lhe todas as razões possíveis para que aceitasse e autorizasse a sua filha a seguir a vontade de Deus. D. Diogo, que era um homem de coração bom, reconheceu que antes dele, Deus era Pai de Tomásia e tinha o direito de a querer ao Seu serviço. Finalmente Carmelita Foi grande a alegria de Tomásia ao receber o consentimento de seu pai, porém foi maior ainda ao realizar o seu grande sonho entrando no Carmelo de S. João Evangelista, em Aveiro, e tomando o Hábito no dia da Natividade de N. Senhora do ano 1706. Passou a chamar-se Irmã Tomásia Maria do Ss.mo Sacramento. Aí viveu feliz durante 33 anos, tendo ocupado, entre outros ofícios o de Mestra de Noviças e duas vezes o de Prioresa. O desejo de uma nova Fundação Por volta do ano de 1736 surgiu, por parte dos Superiores da Ordem e do Bispo, o desejo de abrir um novo Carmelo na cidade de Coimbra. Ir. Tomásia, então Prioresa, viu-se encarregada da realização desta nova Fundação e foi quando se recordou das palavras que lhe pareceu ter ouvido quando caiu a cavalo: “Aqui se há-de fundar um Convento de Carmelitas Descalças!” Com uma força que lhe vinha de Deus, começou a tratar de tudo para a fundação e, embora fossem muitos os problemas e dificuldades que apareciam, ela nunca perdeu a esperança, antes era quem encorajava e animava a todos os que desanimavam perante as dificuldades. O sonho torna-se realidade Escolheu para local da construção do Convento o Casal do Chantre, que com a ajuda de pessoas influentes conseguiu comprar, pois dizia: “Aqui se há-de fundar e não noutro lugar.” Foi grande a sua alegria por receber a ajuda dos estudantes Universitários na construção do Seu Carmelo a que eles chamavam a “Capela da Universidade” e onde, depois, vinham assiduamente à Missa e a reuniões. Recebeu ainda ajuda de muitas outras pessoas, no entanto a tarefa não era fácil e as despesas eram muitas, por vezes chegavam a aconselhá-la de despedir os operários, pois o dinheiro já não dava sequer para o material, mas ela respondia: “Nosso Senhor acudirá!” e a obra nunca parou até que no dia 23 de Junho de 1744 se realizou a inauguração do Carmelo de S. Teresa, entre muitas manifestações de alegria por parte do povo que sempre tratou as suas “Teresinhas” com indizível carinho e apreço. A Carmelita Aqui, retomou a vida normal de Carmelita, sendo Prioresa muitos anos e tratando todas as Irmãs com singular carinho e dedicação, de modo que todas a amavam como verdadeira mãe. A sua fé era tão grande que conseguia alcançar de Deus o que Lhe pedia, tanto em bens espirituais como temporais. Deixamos apenas um exemplo, entre os muitos que dela se podiam contar: Certa vez Madre Tomásia disse à irmã encarregada para pôr queijo no refeitório às religiosas, a qual se recusou, dizendo, que não havia senão o preciso para o dia de Sta. Teresa. Respondeu a Madre que tivesse fé, que Deus os traria. Replicou a irmã duvidando que eles viessem... Então, com maior fé e com a sua costumada alegria, disse: “Senhor confundi esta Irmã e trazei-lhe queijos”. Daí a poucas horas vieram de esmola uma cesta de queijos! Destas, e doutras providências semelhantes foram tantas, sendo ela Prioresa, que não é fácil numerá-las. A despedida Contava 67 anos de idade, quando adoeceu gravemente e começou a sentir próximo o seu fim. No dia 7 de Abril de 1773, pediu para se confessar conseguindo ainda reunir forças para descer ao locutório onde encontrou o seu director espiritual e seu grande amigo. Era sábado, o primeiro do mês! Madre Tomásia confessou-se e mostrou-se disposta a aceitar a vontade de Deus fosse ela qual fosse. A certa altura as suas forças falharam e ela, sem se conseguir mexer, caiu no chão. O Padre aflito chamou as irmãs que imediatamente a levaram para a cela onde recebeu a Santa Unção e, das onze para o meio dia, rodeada por toda a Comunidade, despediu-se de cada Irmã com palavras de alento e esperança, terminou os seus dias numa grande paz. A saudade e sentimentos das suas filhas bem se pode julgar qual seria na falta de tal mãe... E assim se deixa ao discurso de quem ler estas noticias que ainda que toscamente referidas, sempre darão a conhecer quanto era amável a sua companhia por ser uma criatura a quem Nosso Senhor dotou não só de virtudes e graças sobrenaturais como também de dons naturais. A sua vida jamais se esquecerá no Carmelo por ela fundada, pois aqui caiu e aqui permanece para sempre!
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Tirado do livro onde está escrita a memória de todas as irmãs que faleceram neste convento desde o início da Fundação do Carmelo de S. Teresa. |